O Valor de uma Forte Base
- moniqueaayala
- há 1 dia
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Quem dá aulas para grupos tem uma experiência intensa. Os grupos enfatizam o sentimento de vaidade. A vaidade é um sentimento ligado à super valorização do ego, à necessidade de aprovação alheia e à preocupação com a imagem (uma explicação muito por alto, pois não sou psicóloga). Toda mundo tem aluno vaidoso. A verdade é que todos nós temos vaidade de alguma forma. Como ninguém gosta de se sentir inferior ou menos valorizado, temos sentimentos que nos levam a competir em algum nível. Grupos estimulam, mesmo sem querer, a competição.
(Se você, como eu, dá aula para alunos regulares em grupo, nem vou esperar o final do post para deixar meu abraço de coração a coração porque você, com certeza, precisa de acolhimento.)
Kathy Grant foi uma aluna direta do Sr. Pilates e da Sra. Clara. Ela é responsável por criar uma série de exercícios conhecida como Before de Hundred para construir uma forte base antes de introduzir o Hundred.
Quem dá aula para alunos regulares que chegam com diferentes questões, condicionamentos e lesões sabe que muitas vezes não dá para começar com os exercícios da forma como fazem os praticantes de longa data. É preciso entender o que o aluno tem para dar quando ele chega e fracionar os exercícios para fazê-los funcionar dentro da realidade do aluno.
Muita carga, muita velocidade e muita amplitude são usadas em pessoas que são capazes de mostrar eficiência no movimento. Normalmente leva-se muito tempo para ter um bom nível de eficiência. Nada (que valha a pena na vida) é construído de forma rápida e sem esforço. A notícia boa é que, no geral, os alunos ficam tempo suficiente para que possamos construir um movimento de qualidade juntos.
Precisamos de qualidade, organização e consciência.
O movimento em grande amplitude num corpo despreparado revela desalinhamentos, compensações e falta de controle. Quando reduzimos a amplitude, retiramos o “embalo” e obrigamos o corpo a trabalhar com precisão, ou seja, com controle.
O repertório básico do Pilates já é suficientemente complexo e exige organização do centro, da respiração e das conexões entre tronco e membros. Se o aluno não consegue manter essa organização em um gesto pequeno, ampliar o movimento apenas amplia o erro.
Do ponto de vista neuromotor, o movimento pequeno é onde o sistema nervoso aprende. É nele que se constrói coordenação, timing e economia de esforço. A progressão de carga e amplitude só faz sentido quando existe uma base sólida de controle. Caso contrário, o corpo encontra atalhos — e esses atalhos costumam custar caro ao longo do tempo.
Nós, instrutores, podemos refletir: nem sempre “mais” é melhor. Às vezes, reduzir o movimento, desacelerar o ritmo e diminuir a carga é o caminho para refinar a execução e para se chegar mais rápido a evolução real e sustentável.
Ensinar alguém a fazer um movimento pequeno com excelência é ensinar essa pessoa a se mover melhor em qualquer escala — no estúdio e na vida cotidiana.
Para os instrutores, além do meu abraço já dado, fica uma dica: nenhum aluno sabe o que você vai fazer com ele, a aula é sua, você é o especialista. Pense bem antes de introduzir uma variação mais avançada de algum exercício ou permitir que o aluno a faça por que viu o coleguinha fazer. Uma vez que essa liberdade é dada (principalmente em aula em grupo) fica mais difícil voltar atrás, pois o aluno se sente fracassado e inferior. É mais simples explicar para o aluno, caso ele pergunte ou cole do amiguinho, que o melhor para ele é a forma como ele faz. O conceito de forte e fraco não se aplica da forma como ele imagina, mas fraco é aquele que pula etapas e faz movimentos de forma ineficiente e perigosa e forte são aqueles que respeitam o processo e apreciam a caminhada.
Um pouco sobre Kathy Grant (1921–2010): foi uma das mais importantes mestras do Pilates Clássico. Aluna direta de Joseph e Clara Pilates, ela teve papel fundamental na preservação e na evolução do método, especialmente no trabalho de mat e nos princípios de organização corporal.
Conhecida por sua abordagem criativa, profunda e altamente sensorial, Kathy desenvolveu variações e exercícios que enfatizam consciência, precisão e inteligência de movimento. Durante décadas, foi professora no Tisch School of the Arts da Universidade de Nova York, influenciando gerações de bailarinos e professores de Pilates ao redor do mundo.
Seu legado vai além dos exercícios: Kathy Grant ensinou a pensar o movimento, a respeitar os processos do corpo e a compreender que a verdadeira força nasce do controle, não do esforço excessivo.
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